Dia da Mulher expõe desafios no Brasil: violência crescente e barreiras na saúde preocupam especialistas
Dados recentes revelam aumento de feminicídios e dificuldades de acesso à prevenção de doenças
O Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, nasceu como um símbolo da luta por igualdade de direitos, respeito e proteção social. No entanto, no Brasil, os dados mais recentes sobre violência de gênero e acesso à saúde mostram que a realidade ainda está longe do ideal para milhões de mulheres.
Entre o aumento dos casos de feminicídio e as dificuldades financeiras para acessar medidas de prevenção contra doenças graves, especialistas alertam que o país ainda enfrenta problemas estruturais para garantir segurança, autonomia e direitos básicos às mulheres.
Violência contra mulheres continua alta
Os números mais recentes indicam que a violência letal contra mulheres segue como um grave problema no país. Em 2025, foram registrados 1.568 casos de feminicídio no Brasil, o que representa uma taxa de 1,43 morte para cada 100 mil mulheres. O índice representa um crescimento de 4,7% em comparação com o ano anterior.
Desde 2015, quando o feminicídio passou a ser considerado crime específico na legislação brasileira, pelo menos 13.703 mulheres foram assassinadas por razões relacionadas ao gênero.
Outro dado que chama atenção é a desigualdade na distribuição desses crimes pelo território brasileiro. Informações divulgadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que cerca de metade dos feminicídios registrados em 2024 ocorreu em cidades com até 100 mil habitantes, locais onde vivem aproximadamente 41% das mulheres do país.
Além disso, o levantamento revela fragilidades na rede de proteção às vítimas. Aproximadamente 50% dos feminicídios acontecem em municípios que não possuem delegacias especializadas de atendimento à mulher, o que pode dificultar denúncias e o acompanhamento de casos de violência doméstica.
Falta de estrutura agrava o problema
Em muitos desses municípios, a delegacia comum acaba sendo o único local disponível para registrar ocorrências, o que nem sempre garante atendimento especializado ou medidas de proteção imediatas.
Especialistas apontam que ampliar a presença de delegacias da mulher e fortalecer serviços de apoio são desafios fundamentais para o enfrentamento da violência de gênero no Brasil.
A situação se torna ainda mais preocupante diante da falta de estrutura pública. Apenas cerca de 5% dos municípios contam com delegacias especializadas, enquanto somente 3% possuem casas de abrigo para acolher mulheres em situação de risco.
Sem essa rede de proteção, muitas vítimas acabam enfrentando a violência doméstica praticamente sozinhas.
Pesquisadores também destacam que, em cidades pequenas, fatores sociais podem dificultar ainda mais as denúncias. A proximidade entre moradores e o receio de exposição pública fazem com que muitas mulheres tenham medo de procurar ajuda. Em alguns casos, o agressor possui relações sociais com autoridades locais, o que aumenta o temor de represálias.
Além disso, a violência doméstica frequentemente segue um padrão progressivo: começa com ameaças e agressões psicológicas, evolui para violência física e perseguição e, em casos extremos, pode resultar em feminicídio. Especialistas afirmam que muitos desses crimes poderiam ser evitados com políticas preventivas mais eficazes e uma rede de apoio mais estruturada.
Desigualdade também aparece na saúde
As dificuldades enfrentadas pelas mulheres brasileiras não se limitam à segurança pública. Na área da saúde, também existem obstáculos importantes.
Um exemplo é o acesso à vacina contra o HPV, vírus responsável por vários tipos de câncer, especialmente o câncer de colo do útero. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer, essa é a doença que mais mata mulheres com até 35 anos no Brasil.
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A vacina passou a ser oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde em 2014, inicialmente destinada apenas a crianças e adolescentes. Com o passar do tempo, a faixa etária foi ampliada até os 14 anos e também para alguns grupos específicos.
Apesar disso, muitas mulheres adultas ficaram fora da campanha inicial de vacinação.
Para esse público, a alternativa é recorrer à rede privada. A vacina nonavalente, considerada mais completa por proteger contra nove tipos do vírus, custa entre R$ 800 e R$ 1.000 por dose. Como são necessárias três aplicações, o custo total pode chegar a cerca de R$ 3 mil — um valor que pode representar até dois meses de salário para muitas brasileiras.
Médicos apontam que o alto preço se tornou um dos principais obstáculos para ampliar a vacinação entre mulheres adultas. Ainda assim, a imunização pode reduzir significativamente o risco de câncer e garantir proteção por pelo menos 15 anos.
Especialistas também lembram que o HPV está relacionado a outros tipos de câncer, como os de pênis, canal anal e orofaringe, o que reforça a importância da vacinação também entre os homens.
Leis avançadas, mas aplicação limitada
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra a mulher, incluindo a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. No entanto, especialistas afirmam que ainda existe uma grande distância entre a existência dessas leis e sua aplicação efetiva.
Em diversas cidades brasileiras, faltam delegacias especializadas, equipes multidisciplinares de atendimento, casas abrigo e integração entre os órgãos de justiça, segurança pública e assistência social.
Essa ausência de políticas públicas estruturadas contribui para que a violência doméstica ainda seja tratada como um problema privado, quando na realidade se trata de uma grave questão de direitos humanos.
Um momento de reflexão
Diante desse cenário, o Dia Internacional da Mulher vai além de uma simples comemoração. A data também se torna um momento de reflexão sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Apesar dos avanços legais e de algumas políticas públicas, a realidade de muitas mulheres brasileiras ainda é marcada por desigualdade, falta de proteção e dificuldades de acesso a serviços essenciais.
Por isso, especialistas reforçam que a luta por igualdade, segurança e dignidade continua sendo uma pauta urgente no país.
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