Na última segunda-feira, 23, muita gente se impressionou com a rapidez da alta de Kate Middleton após dar à luz ao seu terceiro filho. Apenas sete horas após o parto normal, a duquesa de Cambridge já saía do hospital, de pé, com o recém-nascido no colo e posando para os fotógrafos. A realidade no Brasil é diferente não só devido ao aparato médico. É que a realização de cesáreas no País é maior que o parto normal e, em sua maioria, atrasa a recuperação da mãe, podendo também ser prejudicial para o bebê.
A recomendação da Organização Mundial de Saúde é de que cesarianas sejam responsáveis por apenas 10% a 15% de todos os nascimentos. No Brasil, no entanto, o índice é bem maior. Conforme dados de 2017 do Ministério da Saúde, dos 3 milhões de partos feitos no Brasil durante o ano, 55,5% foram cesáreas e 44,5%, partos normais.
Para a professora de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e atual diretora médica da Faculdade Escola, Zenilda Bruno, o número elevado de cesáreas se dá devido a uma cultura de que essa prática seria melhor por doer menos. “No momento do parto é melhor porque realmente dói menos. Mas depois tem bem mais riscos de infecção e embolia. A recuperação é mais difícil”, explica.
Segundo ela, a cesárea só deve ser escolhida pelo médico quando o bebê está impossibilitado de nascer de parto normal, seja por seu posicionamento, pelo deslocamento ou descolamento da placenta, pelo fato de a mãe ter uma pressão muito elevada, condição conhecida como pré-eclâmpsia, ou por sofrimento fetal durante a tentativa de um nascimento natural. Porém, alguns obstetras optam pela cirurgia por comodidade, por ser um procedimento mais rápido e com data marcada. Essa prática é, para Zenilda, “condenável”.
Samily Mesquita, 35. Há 11 anos foi convencida por um obstetra a realizar uma cesárea, mesmo querendo ter um parto normal durante todo o pré-natal. “Por preguiça do médico fui para a cesárea. Ele disse que meus quartos eram secos, não esperou nem a dilatação. Eu fui amedrontada que não iria conseguir e entrei na sala de parto sem acompanhante”, lembra. Ela conta que a reação após a cirurgia foi ruim devido a uma reação alérgica. Apenas sete dias depois do nascimento de Gabriel pôde andar normalmente.
A prática de uma cesárea sem necessidade pode ser prejudicial para a criança. Zenilda Bruno justifica que, durante o trabalho de parto, o pulmão do recém-nascido é desenvolvido. No caso do parto cirúrgico, por o bebê não passar por esse processo, pode precisar passar por incubadoras ou por uma UTI neonatal, sendo mais propenso a apresentar problemas respiratórios. “O parto normal prepara o bebê”, explicita.
 
Experiência de cada mulher
“Eu geralmente digo que o parto transformou a minha vida inteira”, contou a doula Morgana Xavier, 29. O atendimento humanizado durante o nascimento de sua primeira filha, inclusive, a levou pela escolha da profissão, que objetiva dar apoio à mãe antes e durante o parto. O nascimento de Mariana, há sete anos, ocorreu por meio de parto normal no Sistema Único de Saúde (SUS). “Não lembro da dor física do meu primeiro parto, só das coisas boas. É possível ter uma experiência boa, mesmo sem muito aparato”, considera.
Ela conta que a recuperação, no caso de seu primeiro parto, foi bastante rápida. Lembra que, horas depois do nascimento da filha, ela já estava em pé e ajudava a cuidar de outros bebês que estavam na mesma sala, cujas mães estavam mais debilitadas. Em seu segundo parto, também normal, ela teve uma experiência pior por ter sofrido violência obstétrica. Apesar do ocorrido, defende o nascimento natural. “Com a cirurgia você vai precisar de cuidados. Como vai cuidar de outra pessoa?”, argumenta.
A experiência de cesárea foi a melhor escolha na opinião da estudante Priscila Gomes, 28. Mãe de primeira viagem, ela teve medo do parto normal e preferiu a cirurgia para dar à luz a Ilanna, atualmente com 8 anos. “Eu acho que não teria força, não teria a coragem para um parto normal”, confessa. Ela diz que seu médico tentou convencê-la a efetuar o parto normal, mas por “se conhecer”, decidiu contrariar a recomendação.
A recuperação, no caso dela, foi rápida, mesmo com a cirurgia. Ela lembra que no dia seguinte ao nascimento já foi liberada para ir para a casa e, mesmo no hospital, já se sentia confortável para levantar. Se engravidasse novamente, Priscila afirma que escolheria a cesárea novamente. “Foi tão tranquilo, foi a melhor coisa possível”, conta.
Após a primeira cesárea, Samily Mesquita relata que teve que “lutar” para encontrar um obstetra que aceitasse que ela fizesse um parto normal. Ela menciona que eles argumentavam que, por ela já ter feito a cirurgia, o procedimento natural seria perigoso. O nascimento de Miguel, hoje com cinco meses, teve o acompanhamento de uma doula e de seu companheiro e ela não teve complicações como na outra gravidez. “Quando eu terminei o trabalho de parto eu levantei e ajudei o médico a limpar o quarto”, recorda, aos risos.
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